quanto tempo vai demorar?

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ainda procuro sua casa nos meus pensamentos. aquele bar que comíamos misto quente.

entre olhares de desejo fazendo inveja pra quem nos notasse de mãos dadas na mesa.

meu cabelo preso, minha bata mexicana e meia calça (que você dizia adorar).

bermuda, camiseta do seu time e o novo óculos de grau no criado-mudo.

longas playlists de música brega dos anos 80. te contei quais eram meus planos.

deitamos juntos com a luz do quarto acesa. brinquei com seu cachorro em cima da cama.

vi você dormir ao meu lado enquanto a luz do sol invadia as portas do guarda-roupas.

senti o que você não sentiu. e nunca vai sentir.

ainda procuro seu rosto em todos outros rostos. barba preta, cabelo preto, dentes bonitos.

sorriso que fica pra sempre comigo. não quer sair daqui de dentro.

ainda lembro dos longos beijos no elevador.

se você o vir por aí, dê um por mim?

 

teve essa vez que…

nada é por acaso. nem a criança sentada na praça sorrindo pra você na tristeza.

nem o tremor no peito quando você pega na mão de quem tá do lado.

nem a entrega do meu rosto vermelho quando sinto. tanto.

nenhum desvio de olhar acontece de repente.

chegou o momento em que não se quer explicar.

no chão varrido pra debaixo do tapete.

nada tá escrito. ou num papel sem caneta.

nem gostar tanto de você. nem sei.

 

tão perto e tão longe.

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hoje foi daqueles dias em que eu quis ter sensações. de ficar na calçada esperando o farol abrir e em volta 15 pessoas me acompanhavam. de sentir o vento gelado no rosto e pensar que podia ter levado mais uma blusa, mas era só um vento, já esqueci.

foi o dia em que eu saí do trabalho, passei na biblioteca pra respirar o cheiro dos livros e das grandes estantes de madeira. daquela gente que tem cara de inteligente, de que lê tudo que vê pela frente, de quem gosta mesmo daquelas pagininhas velhas.

foi o dia também de andar por aquelas ruas largas do centro de São Paulo e ver aquele tantão de passo acelerado sem saber pra onde cada um estava indo. sem saber se ali morava alguém triste ou alegre, vi até uma moça chorando no telefone, mas também o moço rindo com quem fosse dentro do restaurante.

foi dia de sentir o cheirinho do pão quentinho e café do boteco no Anhangabaú. dia de olhar pra todos os prédios e reparar nas cortinas coloridas que protegiam as janelas do tempo. parecia um jogo de sete erros. cada pano de uma cor, cada tecido era diferente.

foi o dia que eu decidi tentar amenizar seu sorriso da minha memória, se não vou acabar enlouquecendo e talvez, quem sabe, contando pro taxista tudo que passou entre a gente. ele bem que pode me dar um conselho de homem, sei lá, né? vai que ele me ajuda?

foi dia de parar com esse meu jeito de me apaixonar tão fácil com quem é legal demais comigo, porque eu tenho isso de achar que nunca mereço, de achar que a vida pra mim não pode ser assim, não é tão simples. mas muitas vezes ela é, isso passa, eu nem percebo e a razão daquela pequena felicidade vai embora como um mosquito no doce. já foi.

foi o dia em que eu parei de pegar carona com os pensamentos ruins. de afastar aquele cisquinho no olho que aparece por qualquer besteira.

foi assim. o dia em que eu tava só andando por aí. com uma música besta na cabeça e os pés nem doendo por irem pra tão longe.

 

de manhã.

eu gosto de acordar minutos antes de você. pra te olhar dormindo. tranquilo. com a boca meio aberta, meio fechada. a mesma boca que me beijou por horas sem se cansar.

gosto de pensar que naquele momento você tem paz. descansa da correria da vida. de ter me desejado tanto.

gosto dos seus olhos fechados. o que será que sonha? eu penso: será que ele vai despertar a qualquer minuto e me ver aqui parada do seu lado? fico quieta e paro de pensar.

suas mãos estão largadas, uma na minha cintura e a outra pousa no travesseiro. silêncio.

nossas respirações são suaves. as mesmas que foram de suspiros e vontades. gotas do tempo frio escapam entre as cortinas do quarto. existe uma música ali que ninguém escuta. só eu.

a água faz barulho de pulos na beirada do seu tapete.

suas pernas se misturam com o edredom. dobras bonitas. eu com as mãos embaixo do rosto. tento dormir.

aí você acorda. olhos clarinhos de sono me encarando.

“feche os olhos, vou ficar por aqui um tempo”.

 

há um lugar.

“há um lugar no coração que nunca será preenchido
um espaço

e mesmo nos melhores momentos e nos melhores tempos nós saberemos
nós saberemos mais que nunca

há um lugar no coração que nunca será preenchido
e nós iremos esperar
e esperar

nesse lugar.”

Bukowski.